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O Mundo em Gradual Recuperação

Escrito por Armando Castelar.

Duas vezes ao ano, em abril e outubro, o FMI revê suas projeções para a economia global, com grande detalhamento em termos de países e indicadores. Simultaneamente, o Fundo elenca os principais riscos globais e recomendações de política para evitar esses riscos e surpreender positivamente em termos de crescimento.

Semana passada o FMI publicou suas mais recentes previsões, pintando um quadro mais positivo para a economia global. A expectativa agora é que o PIB mundial cresça 3,5% em 2017, acelerando em relação a 2015 e 2016. Tanto os países desenvolvidos como os emergentes devem melhorar seu desempenho.

Entre os primeiros, o destaque são os EUA, que este ano deve crescer 2,3%, depois de em 2016 ter tido expansão um terço menor do que o Fundo previa há um ano. Entre os emergentes, o maior crescimento se deve em grande parte ao fim das recessões na Rússia e no Brasil. Para a Ásia emergente, que deve responder por 57% da expansão do PIB mundial este ano, a expectativa é de uma alta sustentada do PIB, de 6,4% neste e no próximo ano.

Outro aspecto a destacar é o maior aumento do volume de comércio internacional de bens e serviços, para o qual o FMI projeta expansão de 3,8% este ano e 3,9% em 2018. Se confirmadas essas taxas, esse será o ritmo mais forte de alta do comércio internacional desde 2011.

Outro indicador positivo é a aceleração da inflação de preços ao consumidor nas economias avançadas, de 0,8% em 2016 para 2,0% este ano e 1,9% em 2018. Vai contribuir para isso a forte valorização das commodities. A inflação mais alta vai ajudar a reduzir o endividamento de famílias e empresas e permitir uma gradual normalização da política monetária, em especial nos EUA, que está mais avançado nesse processo. A expectativa é que a taxa de juros no interbancário de Londres (Libor), em dólar, suba de 1,1% em 2016 para 1,7% este ano e 2,8% em 2018. A Libor em euro deve permanecer levemente negativa e em iene constante em zero.

Esse é um cenário externo bastante favorável à América Latina: PIB mundial crescendo mais rápido, alta no preço das commodities e no ritmo de expansão do volume de comércio internacional, juros reais em média negativos nos principais centros financeiros globais e, de forma geral, uma gradual normalização da economia mundial, que pode ser reforçada pela esperada vitória de Emmanuel Macron no segundo turno da eleição francesa.

Não obstante, o FMI está mais pessimista com a América Latina e Caribe este ano, tendo reduzido a projeção de crescimento da região em 0,5 ponto percentual (pp), para alta de apenas 1,1%; menos de um terço, portanto, do ritmo de expansão global. Para 2018 o Fundo projeta alta de 2,0%, 0,2 pp a menos que seis meses atrás. Um pior cenário para o México, por conta da deterioração das relações com os EUA após a eleição de Donald Trump, explica a maior parte dessa revisão.

O Fundo está mais pessimista que a maioria do mercado financeiro brasileiro quanto ao nosso PIB neste e no próximo ano: expansão de 0,2% em 2017, acelerando para 1,7% em 2018. O mercado trabalha com taxas de 0,4% e 2,5%, respectivamente. Ainda que os números divirjam, os fundamentos da recuperação são os mesmos nos dois casos: queda na incerteza política, relaxamento monetário e avanço no programa de reformas.

O Fundo enxerga vários riscos para seu cenário, a maioria no sentido de reduzir o crescimento. Os dois mais importantes, da nossa perspectiva, são um aumento do protecionismo, liderado pelos países ricos, em especial os EUA, e uma alta mais pronunciada da curva de juros americanos, que penalizaria os países e as empresas com maior endividamento externo. O Fundo também vem alertando há bastante tempo para o risco que representa o crescente endividamento corporativo na China, que tem sido um instrumento fundamental a que o país tem recorrido para manter um forte ritmo de crescimento.

Nos últimos anos o FMI tem errado por se mostrar muito otimista com a recuperação da economia mundial, que tem decepcionado seguidamente. Mas há motivo para mais otimismo desta vez. De um lado, porque a retomada está mais disseminada entre países e setores. De outro, pois o risco político parece estar diminuindo, em que pese o acirramento de alguns conflitos militares. Há bons motivos, portanto, para que estejamos finalmente deixando para trás os piores momentos da crise internacional iniciada em 2007.

Artigo publicado no jornal Correio Braziliense em 26 de abril de 2017.

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