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2017, um Ano Difícil de Prever

Escrito por Armando Castelar.

Este ano tem dado um bocado de trabalho aos economistas. Houve horas em que as coisas pareciam bem encaminhadas, outras em que tudo parecia perdido, para logo depois o susto passar.

O ano começou sob a ameaça de uma deterioração do ambiente externo, por conta da eleição de Donald Trump. Como candidato, Trump prometera um forte estímulo fiscal, via redução de impostos e um ambicioso programa de investimentos em infraestrutura. A vitória dos republicanos nas eleições para o legislativo indicava que seria fácil para Trump passar suas políticas pelo Congresso. O resultado deveria ser uma aceleração do PIB e da inflação, o que elevaria os juros e valorizaria o dólar. Um péssimo cenário para emergentes como o Brasil.

A Europa também preocupava. Após a vitória do Brexit e de Trump, os movimentos populistas pareciam imbatíveis. Era um sinal ruim, considerando que Holanda, França e Alemanha teriam eleições decisivas em 2017, que, dependendo do desempenho dos partidos populistas, poderiam levar ao fim da Área do Euro.

Nenhuma dessas ameaças externas se materializou. A surpresa maior foi nos EUA, onde Trump não conseguiu aprovar nada de relevante. O resultado foi a queda dos juros longos e a desvalorização do dólar: no ano, até meados de setembro, uma queda de 7,1%. Na Europa o risco político também se dissipou e a atividade econômica teve expansão acima do esperado.

Com isso, e a manutenção de políticas monetárias muito frouxas, o apetite dos investidores pelo risco aumentou. Tudo isso ajudou a elevar os preços das commodities, melhorar as contas externas, reduzir os prêmios de risco país e valorizar as moedas de países emergentes. Uma evolução que facilitou a vida das autoridades monetárias, que vêm reduzindo os juros em vários desses países.

Nossas contas externas se beneficiaram desse ambiente. A alta das commodities alavancou nossas exportações, que devem terminar o ano perto de US$ 215 bulhões, 27% acima do que se previa. Em consequência, se terá um superávit comercial recorde, na faixa de U$ 68 bilhões, mais que o dobro do antecipado ao final de 2016.

Outra surpresa boa veio do clima muito favorável à agricultura. Já se esperava, ao final de 2016, que este ano o PIB agropecuário se recuperasse da forte queda do ano passado (-6,6%). Mas o resultado foi muito melhor do que o previsto: hoje as estimativas apontam para alta de quase 13% no PIB do setor, uma contribuição de 0,7 ponto percentual (pp) para o crescimento do PIB total.

Tão ou mais importante, porém, foi o impacto do bom ano agrícola sobre a inflação. No acumulado em 12 meses até meados de setembro, de acordo com o IPCA-15, essa caiu para 2,6%, contra 8,8% um ano antes. Da redução de 6,2 pp na inflação, 3,7 pp vieram do comportamento mais favorável dos preços de alimentos. Com isso, hoje já se prevê que o ano feche com inflação abaixo de 3,0%, contra uma projeção de 5,1% ao final de 2016.

A queda da inflação de alimentos e do risco país facilitaram a vida do Banco Central. Basta ver que em dezembro passado esperava-se que a Selic caísse ao final de 2017 para 11%. Agora se projeta uma taxa de 7%.

Enquanto o ambiente externo e o clima surpreenderam positivamente, na política predominaram as surpresas negativas. O pior, de longe, foram as denúncias contra o Presidente, e outros políticos, que esvaziaram muito da dinâmica política favorável que emergiu na área fiscal após a aprovação da emenda constitucional 95, que fixou o teto de gastos primários para a União. O que não impediu, porém, que medidas positivas importantes fossem aprovadas, como a criação da Taxa de Longo Prazo (Lei 13.483/2017).

Tudo isso misturado, chega-se hoje a uma projeção para a alta do PIB em 2017 um pouco acima da que se imaginava: 0,8%, meio ponto percentual a mais do que se antevia no final de 2016. A composição dessa alta também deve ser bem distinta. O investimento, em especial, reagiu mal ao clima de incertezas, notadamente no que se refere à construção civil, que deve ter mais um ano de forte retração.

No todo, predominaram até aqui as surpresas positivas. Não obstante, seu efeito é mais de curto prazo: os fundamentos econômicos continuam fracos e o quadro fiscal segue se agravando. O risco é que a melhora na conjuntura e as surpresas ruins na política dificultem a adoção de reformas críticas, como a da previdência social. O que vai tornar o Brasil mais vulnerável à possibilidade de que as boas surpresas um dia virem notícias ruins.

Artigo publicado no jornal Correio Braziliense em 27 de setembro de 2017.

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