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O Otimismo sobre 2018

Escrito por Armando Castelar.

Em uma das passagens do excelente “Lords of Finance”, de Liaquat Ahamed, o presidente do Banco da Inglaterra (Morgantu Norman) pega um navio com falsa identidade para ir a Nova York encontrar-se com sua contraparte no banco central americano (Benjamin Strong). Os dois tinham boa relação: passaram férias juntos na Riviera francesa. Era o ritmo de então, virada do século XIX para o XX: a política monetária global se acomodava ao tempo das viagens transatlânticas, às férias etc.

Junto com tempo veio a velocidade e um mundo de informação, nem sempre fácil de interpretar. É o caso dos sinais sobre 2018. O sentimento dominante é de otimismo: espera-se que a economia tenha um ótimo desempenho, em quase todos os sentidos. Mas há também a percepção de crescente fragilização institucional e de incerteza sobre o futuro do país.

O otimismo com a economia é global. Há um par de semanas o FMI lançou novas projeções para a economia mundial, elevando a expectativa de crescimento: agora espera alta do PIB global de 3,7% este ano e 3,8% em 2018, contra 3,2% ano passado. Só 3% das quase duas centenas de países que o Fundo acompanha não devem crescer ano que vem.

Esse desempenho virá de políticas fiscais agregadamente neutras e condições financeiras expansionistas, com o aperto monetário na Área do Euro, nos EUA e no Reino Unido sendo modesto e compensado pelo relaxamento nas condições de crédito e o maior apetite pelo risco. O resultado será a continuação da recuperação cíclica em curso nos países ricos.

Países produtores de commodities vão se beneficiar da estabilidade dos preços desses produtos em patamar relativamente alto e do relaxamento monetário em curso na maioria deles. Por fim, a Ásia Emergente, responsável por quase metade da expansão do PIB mundial nos últimos sete anos, deve seguir crescendo cerca de 6,5% ao ano.

O cenário de médio prazo é menos uniformemente positivo. O PIB global continuará aumentando cerca de 3,7% ao ano até 2022, prevê o Fundo, mas enquanto o crescimento deve acelerar nas economias emergentes, notadamente nos países produtores de commodities, ele deve perder força nas economias avançadas, em função do envelhecimento da população e do ritmo lento de alta da produtividade.

Se confirmada, essa projeção de baixo crescimento nos países ricos, mantida a forma desigual como ele vem sendo distribuído, especialmente nos EUA, pode ser uma fonte de incerteza política, reforçando o risco de populismo. Este, que parecera dar uma trégua após a vitória de Emmanuel Macron, na França, ressurgiu no movimento separatista na Catalunha, nas eleições na República Tcheca e nos movimentos por maior autonomia no Veneto e na Lombardia (Itália). E mantém-se vivo nas políticas protecionistas que colocam em risco a sobrevivência do NAFTA (acordo de livre comércio da América do Norte) e da Organização Mundial do Comércio.

O cenário para a economia brasileira no ano que vem também é positivo. A narrativa dominante é que a recuperação na demanda doméstica deve se acentuar, por conta da queda dos juros reais, que devem estabilizar-se em 3% em 2018, no caso da Selic. A inflação deve ficar baixa, em função da inércia inflacionária e de preços de alimentos bem comportados. E deve-haver uma interação positiva entre melhoria das condições de crédito, aumento do emprego e da renda, e alta no consumo e na arrecadação tributária, que junto com o custo mais baixo da dívida pode mitigar as preocupações com as contas públicas.

O FMI, porém, está menos otimista com o Brasil, projetando que nosso PIB cresça só 1,5% em 2018, 1 ponto percentual a menos que os analistas de mercado. Para o Fundo, a incerteza política e com relação ao futuro da política econômica, e o fato de estas manterem o investimento em patamar deprimido, vão travar o nosso crescimento ano que vem.

Acho que o Fundo está pessimista demais, até porque o Banco Central teria munição para reduzir ainda mais os juros e estimular a demanda doméstica, se necessário. Mas acho que ele tem um ponto em relação a horizontes mais largos: a aceleração do crescimento vai durar pouco e logo esbarrar na falta de um ambiente propício ao investimento e ao aumento da produtividade. Muita insegurança jurídica, muita incerteza institucional, contas públicas em trajetória explosiva e o risco elevado de volta do populismo. Não deveríamos nos enganar com os bons ventos que vão soprar por aqui em 2018: é preciso continuar trabalhando pelas reformas.

Artigo publicado no jornal Correio Braziliense em 25 de outubro de 2017.

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