Imprimir

A Recuperação Avança

Escrito por Armando Castelar.

Dezembro começou com o IBGE divulgando os resultados das Contas Nacionais para o terceiro trimestre de 2017 e as contas revistas para 2016 e o primeiro semestre de 2017. Nos dois casos as notícias são boas, mas não o bastante para grandes celebrações.

Trimestre passado o PIB brasileiro aumentou de novo, desta vez 0,1%, a terceira alta trimestral consecutiva, consolidando a visão de que o país saiu da recessão, que acabou no final de 2016, segundo o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos. Comparado às expectativas dos analistas de mercado, que em média previam uma expansão trimestral dessazonalizada de 0,3%, o resultado surpreendeu negativamente, mas veio exatamente em linha com nossa projeção no IBRE/FGV.

Pelo lado da oferta, a indústria se destacou, com crescimento de 0,8%. O desempenho do setor foi puxado pela indústria de transformação, com alta de 1,4%. Extração mineral (0,2%), serviços industriais de utilidade pública (0,1%) e construção (0,0%) ficaram no positivo, mas com alta modesta. O setor de serviços também teve desempenho positivo, com destaque para o comércio, com alta de 1,6%.

Como previsto, a agropecuária foi o destaque negativo, registrando uma contração de 3,0% e devolvendo parte do excelente desempenho do primeiro trimestre: na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, porém, ainda registra alta de 9,1%. Vale, assim, o registro de que a agropecuária continua puxando o crescimento na comparação interanual, mas que foram os demais setores que levaram à expansão trimestral do PIB.

Pelo lado da demanda, o destaque foi sem dúvida a alta da formação bruta de capital fixo, de 1,6%, a primeira na comparação trimestral desde o terceiro trimestre de 2013! Esta foi integralmente puxada pelas inversões em máquinas e equipamentos, dada a virtual estagnação da construção. Queda do investimento público, dificuldades na infraestrutura e um estoque ainda elevado de imóveis novos desocupados vão continuar travando o setor de construção por ainda algum tempo.

A principal alavanca do crescimento pelo lado da demanda continuou sendo, porém, o consumo das famílias, que aumentou 1,2%, a terceira alta consecutiva, sem dúvida alimentado pela melhoria do mercado de trabalho, que tem surpreendido positivamente os analistas. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgada na quinta, mostrou que tanto o emprego como a renda seguem em alta, com a massa salarial subindo 1,4% em relação ao trimestre anterior e 4,2% na comparação anual.

No acumulado do ano, o PIB registrou alta de 0,6%. Esse resultado reflete em parte a revisão das taxas de crescimento no primeiro e no segundo trimestre em relação ao mesmo período em 2016: respectivamente, de -0,4% para 0,0% e de 0,3% para 0,4%, com desempenho ainda melhor da agropecuária e marginalmente menos ruim da indústria e dos serviços.

Ainda que a realidade do trimestre tenha se mostrado menos favorável do que a média dos analistas previa, essa revisão deve motivá-los a elevarem um pouco sua projeção para o PIB de 2017, atualmente de alta 0,7%, para algo mais próximo de 1,0%. Isso pois as expectativas são de que a economia tenha continuado a se recuperar neste final de ano, enquanto o quarto trimestre de 2016 foi de queda. Isso ratificaria as projeções de uma alta mais robusta do PIB em 2018.

O detalhamento das Contas Nacionais de 2015, a incorporação das pesquisas setoriais anuais do IBGE e a atualização de algumas bases de dados primárias também levaram à revisão do crescimento nos quatro trimestres de 2016 e, portanto, da taxa do ano. As novas estimativas mostram uma contração ligeiramente menor do que a antes estimada, mais ainda assim terrível: queda de 3,5%, em vez de 3,6%. O destaque continuou sendo a forte contração da demanda doméstica, liderada pela redução de 10,3% do investimento.

O que traz de volta o ponto feito antes: as notícias são boas, mas em um contexto geral que continua tétrico. No terceiro trimestre de 2017 o PIB continuava 6,2% abaixo do pico anterior, registrado no início de 2014. Na mesma comparação, o investimento registrava queda de 27,1%. Mantido esse ritmo levaremos anos para voltar ao mesmo patamar de atividade que tivemos no passado. Se pensarmos em termos per capita, a narrativa é ainda mais triste.

Assim, a celebração por conta de outra taxa positiva de variação da atividade deveria ser breve. Mais fundamental é o ritmo lento da atual recuperação, que deveria servir de alerta aos eleitores de que populismo e políticas ruins têm consequências. Se opor às reformas e insistir no caminho das más políticas econômicas é um direito, mas ele deveria ser exercido com a consciência de que isso manterá seu padrão de vida estagnado. 

Artigo publicado no jornal Valor Econômico em 4 de dezembro de 2017.

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

Últimos Blogs

article thumbnailHoje o Banco Central (BC) divulgou os resultados do balanço de pagamentos para maio de 2017, trazendo mais uma série...
More inBlog Portugues