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Perspectivas e Riscos em 2018

Escrito por Armando Castelar.

Poucas vezes, como agora, terminamos um ano com expectativa tão positiva em relação ao ano que entra. Com um cenário econômico externo favorável, uma dinâmica doméstica positiva e a possibilidade de as eleições destravarem as reformas que o país precisa, o brasileiro entra 2018 com a esperança de um futuro melhor. Há boas razões para esse otimismo, mas também o risco de que esse cenário não se materialize.

Depois da longa recessão causada pela Nova Matriz Econômica, e com a economia ainda abaixo do seu potencial, os dois problemas tradicionais vão continuar sem nos incomodar em 2018: a inflação e o equilíbrio das contas externas. Os preços devem subir cerca de 4% em 2018. O saldo comercial, após bater um recorde em 2017, deve permanecer elevado ano que vem e levar a um déficit em conta corrente facilmente financiável pelas entradas de investimento direto estrangeiro.

Ainda que o desemprego vá continuar alto – no IBRE/FGV projetamos que a taxa de desemprego caia 0,4 ponto percentual, para 12,4% -- tanto o rendimento real dos trabalhadores ocupados como o emprego devem aumentar. A massa salarial real, em especial, deve crescer cerca de 3% e, junto com a recuperação da confiança e uma expansão moderada do crédito às pessoas físicas, levar a uma alta significativa do consumo das famílias, que será a âncora da economia em 2018.

O investimento também deve crescer, mas menos do que em outras retomadas cíclicas. Vários fatores contribuirão para isso, como a elevada capacidade ociosa em alguns setores e as limitações à expansão dos gastos públicos. Um freio especialmente importante será a percepção de que vários riscos cercam a atual retomada da economia brasileira. Sem dúvida, o maior deles é que as eleições, em lugar de viabilizar reformas, tragam um governo populista que acabe por detonar uma crise fiscal.

A retomada da atividade vai elevar as receitas tributárias e, em que pese o ano eleitoral, o governo deve manter alguma disciplina nos gastos, até pela necessidade de respeitar o teto imposto pelo Emenda Constitucional 95. Isso permitirá uma pequena redução do déficit primário e, com a queda da despesa com juros, o aumento do PIB e o pagamento pelo BNDES da dívida com o Tesouro, fazer com que a dívida bruta do setor público fique constante como proporção do PIB.

Mas essa será uma melhora ilusória da dinâmica fiscal. O governo a ser eleito em outubro próximo terá de fazer uma ampla reforma nas contas públicas, a começar pela da previdência, que dificilmente será aprovada em 2018, se quiser evitar que a dívida pública continue crescendo como nos últimos anos. Terá o novo governo interesse e apoio para isso? Irá o mercado esperar para ver ou se assustará com as pesquisas, fugindo de ativos brasileiros ainda em 2018?

Há outros três riscos que podem atrapalhar o bom desempenho da nossa economia em 2018. O primeiro é a escassez de energia elétrica, que pode resultar de uma baixa precipitação neste verão. Há vários reservatórios de hidrelétricas em baixo nível e se as chuvas forem desfavoráveis será preciso recorrer mais intensamente às térmicas, o que elevará significativamente as tarifas e prejudicará o desempenho da indústria de transformação.

O segundo é o risco de algum acidente geopolítico. Fala-se muito da Coreia do Norte, mas a situação no Oriente Médio também anda muito complicada. Um conflito e/ou uma crise econômica na região podem elevar a aversão ao risco, com consequências negativas para os ativos de mercados emergentes. A boa situação das nossas contas externas vai amortecer o impacto de uma crise dessas, mas não integralmente.

O terceiro risco é que a normalização da política monetária nos países ricos, que vai prosseguir em 2018, acabe nos afetando mais do que está hoje precificado. Em especial, é possível que a reforma tributária nos EUA e a inflação nos preços ao produtor, que já subiu em alguns países, pressionem mais os preços ao consumidor do que hoje se prevê.

Acima de tudo, me preocupa o risco de que os bons indicadores de 2018 levem à complacência com a adoção de reformas, sem reconhecer a excepcionalidade do ambiente que permitirão esses resultados. O risco é que essas reformas sejam empurradas para a frente, até o dia em que as condições externas, principalmente, ou a confiança dos investidores se alterem e aí nos vejamos mergulhados em outra crise séria.

Artigo publicado no jornal Correio Braziliense em 27 de dezembro de 2017.

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