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A Bomba Relógio da TJLP

Escrito por Armando Castelar.

Em sua coluna de 16 de abril, “A Armadilha da TJLP”, Fernando Dantas resumiu com a habilidade de sempre minhas muitas preocupações com a política que vem sendo adotada para a TJLP. Na minha visão, trata-se de mais uma bomba que vem sendo armada, com data certa para explodir: 2015. Recomendo o texto, pois é um tema importante que tem sido pouco discutido: http://bit.ly/1lF00ib.

Quero, porém, acrescentar duas outras preocupações que acabaram não sendo citadas na coluna do Fernando: o confisco que essa política faz dos recursos do trabalhador e o custo adicional que as baixas taxas reguladas – TJLP e TR -- impõem ao controle da inflação. Eu tratei do primeiro tema na minha coluna no Correio Braziliense de 27 de março passado (http://bit.ly/1ptGjzL). Neste post vou tratar do segundo tema.

Nas Tabelas 1 e 2 eu apresento as taxas de juros e os saldos de operações de crédito bancárias separadamente para créditos livres e as principais linhas de crédito direcionado. Como se vê, as linhas de crédito direcionado com taxas reguladas – basicamente BNDES e CEF – estão sendo oferecidas a juros reais abaixo de 1%, enquanto o Tesouro paga taxas de mais de 4%. Isso sem considerar que os títulos do Tesouro têm menor risco de crédito, maior liquidez e menor duration. O destaque fica com os empréstimos do BNDES, indexadas à TJLP, que respondem por mais de 20% do crédito bancário.

Dada a importância dessas linhas – que somam 39% de todo o crédito bancário no Brasil – torna-se um custo elevado para o país que o seu custo não reflita as decisões de política monetária. Assim, enquanto a taxa Selic acumulada mensalmente subiu 320 pontos base entre março de 2013 e fevereiro de 2014, a taxa média nas operações de crédito direcionado com taxas reguladas aumentou meros 20 pontos base. Para o todo das operações com crédito direcionado, a alta foi de apenas 30 pontos base.

Isso significa que apenas 54,6% do mercado de crédito brasileiro são sensíveis às decisões tomadas pelo Copom. Os outros 45,4% ignoram solenemente o que decide o Banco Central. Para quem se pergunta por que os juros são tão altos no Brasil, está aí parte da resposta, em duas partes. Porque, para quase metade das operações de crédito, eles são, de fato, bastante baixos, na faixa de 1% acima da inflação, e, para isso, a outra metade dos empréstimos funciona com taxas muito altas.

Por fim, causa preocupação o forte crescimento da parcela de crédito direcionado na economia. Entre março de 2007 e fevereiro de 2014, essa parcela aumentou de 35,5% para 45,4%, uma alta de 0,12 ponto percentual ao mês. Nos 14 meses até fevereiro de 2014 essa proporção subiu 4,5 pontos percentuais, ou seja, 0,375 ponto percentual ao mês, uma velocidade três vezes maior. Nesse ritmo, o país chegará a dezembro de 2014 com o crédito direcionado respondendo por 49,1% de todo o crédito bancário no país. Consertar a TJLP e a TR se tornará um desafio enorme, tarefa para alguns anos.

Tabela 1: Taxas de juros em créditos bancários

     

Crédito direcionado

Crédito livre

     

Taxas Reguladas

Taxas não reguladas

Outros

Total

   

Selic

Rural

Imobi-liário

BNDES

Média

Rural

Imobi-liário

2012

Dez

7,2

4,9

7,4

6,7

6,7

9,9

12,2

9,6

7,0

25,3

                       

2013

Jan

7,1

4,6

7,4

7,2

6,9

10,2

12,3

10,7

7,3

26,2

Fev

7,1

4,7

7,3

7,1

6,8

11,0

12,1

9,5

7,2

26,5

Mar

7,2

5,0

7,3

7,1

6,9

10,7

11,9

10,5

7,3

26,0

Abr

7,3

5,0

7,4

6,6

6,6

10,4

11,6

9,8

7,0

26,3

Mai

7,4

5,0

7,4

6,3

6,5

11,2

11,6

9,5

6,9

25,8

Jun

7,9

4,9

7,4

6,8

6,7

10,5

11,5

10,1

7,1

26,6

Jul

8,2

4,9

7,5

6,5

6,7

12,2

12,4

10,8

7,2

27,5

Ago

8,5

4,8

7,6

6,6

6,7

12,4

11,7

11,5

7,2

28,1

Set

8,9

4,8

7,9

6,6

6,8

12,5

12,0

10,2

7,2

28,4

Out

9,3

4,9

8,2

6,5

6,9

13,0

12,9

10,9

7,4

29,0

Nov

9,5

4,7

8,2

6,7

6,9

13,1

13,3

11,7

7,5

29,4

Dez

9,9

4,7

8,2

6,7

6,9

14,0

13,2

11,8

7,5

29,0

                       

2014

Jan

10,2

4,6

8,8

7,0

7,3

13,9

14,1

12,1

7,9

30,7

Fev

10,4

4,7

7,9

7,1

7,1

12,9

13,0

11,8

7,6

31,5

                         

Fonte: Banco Central.

Tabela 2: Saldos de créditos bancários (% do Crédito Total)

 

Crédito Direcionado

Crédito livre

 

Com taxas reguladas

Sem regulação de taxas

Outros

Total

   

Rural

Imobi-liário

BNDES

Total

Rural

Imobi-liário

2012

Dez

4,7

11,1

20,1

35,9

1,2

1,5

2,3

40,9

59,1

                     

2013

Jan

4,7

11,3

20,2

36,2

1,2

1,5

2,3

41,3

58,7

Fev

4,7

11,4

20,2

36,3

1,2

1,6

2,6

41,7

58,3

Mar

4,7

11,5

20,1

36,3

1,2

1,6

2,7

41,8

58,2

Abr

4,7

11,7

20,3

36,7

1,2

1,7

2,7

42,2

57,8

Mai

4,7

11,8

20,3

36,9

1,1

1,7

2,8

42,5

57,5

Jun

4,9

11,9

20,2

37,0

1,4

1,7

2,8

42,9

57,1

Jul

4,8

12,2

20,4

37,3

1,4

1,8

2,8

43,3

56,7

Ago

4,9

12,3

20,5

37,7

1,4

1,8

2,8

43,7

56,3

Set

5,0

12,4

20,2

37,5

1,5

1,9

2,7

43,6

56,4

Out

5,0

12,6

20,0

37,7

1,4

1,9

2,8

43,8

56,2

Nov

5,1

12,7

20,1

37,9

1,5

1,9

2,8

44,1

55,9

Dez

5,2

12,6

20,3

38,1

1,6

1,9

2,9

44,4

55,6

                     

2014

Jan

5,2

12,9

20,6

38,7

1,6

1,9

2,9

45,1

54,9

Fev

5,3

13,0

20,6

38,9

1,6

2,0

2,9

45,4

54,6

Fonte: Banco Central. 

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