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Breves Comentários ao livro de Sergio Leo, Ascensão e Queda do Império X

Escrito por Armando Castelar.

Ivar Kreuger foi um gênio financeiro do início do século XX.  Nascido na Suécia, em 1880, herdou dos pais duas fábricas de fósforos, que transformou em um quase monopólio global. Um dos homens mais ricos do mundo à sua época, tornou-se também um dos mais influentes, emprestando dinheiro para os governos europeus falidos após a I Grande Guerra. Em 1932 Ivar Kreuger se suicidou em sua casa em Paris. Nos meses seguintes se descobriu que o seu império era um castelo de cartas, uma grande pirâmide internacional. Muita gente perdeu dinheiro investindo em seus negócios.

A primeira referência que vi sobre Ivar Krueger foi na edição de fim de ano da The Economist (http://econ.st/1l5LEH6), em 2007. Naquela época comentei com amigos como podíamos saber se Eike Batista, que expandia seu próprio império a uma velocidade alucinante, com dinheiro de terceiros, não era um novo Ivar kreuger. A reação foi a pior possível. Como lembrei depois, tínhamos todos no grupo um amigo comum com importante posição no grupo X.

Lembrei-me dessa história neste fim de semana, lendo o bom livro de Sergio Leo, “Ascensão e Queda do Império X” (Ed. Nova Fronteira, 2014). O livro, basicamente, desconstrói a imagem de Eike Batista. O livre se lê bem, com linguagem direta, bom ritmo, e capítulos bem encadeados uns nos outros. Dá para ler numa varada só. É uma leitura útil para quem quer acompanhar as notícias sobre o empresário que circulam na imprensa.

O livro começa com Eike aos 12 anos e o segue até hoje. Mas não se trata de uma biografia, é mais um documentário do sua carreira. É, em especial, um contraponto ao livro do próprio Eike, “O X da Questão”. O fascinante é que o livro se baseia principalmente em informações públicas, mas pouco disseminadas, em alguns casos por exigirem alguma pesquisa. Sergio Leo também entrevistou ex-colaboradores e pessoas que tiveram contato com o empresário, mas isso sustenta principalmente a descrição de aspectos mais pitorescos sobre os hábitos do empresário.

Mas o livro não é só sobre Eike Batista. É também sobre o lado menos vistoso do capitalismo brasileiro. Sobre a importância dos incentivos fiscais, do crédito público subsidiado, das compras camaradas por empresas estatais. E, principalmente, sobre a importância dos contatos, daqueles que o empresário herdou do pai e daqueles que construiu por si mesmo.

O livro mostra, porém, que é preciso mais do que só apoio governamental. Eike Batista, como Ivar kreuger um século antes, era um grande vendedor. Com isso, convenceu inúmeras empresas privadas a apostar nos seus planos. Multinacionais, bancos privados, fundos de investimento, todos colocaram dinheiro nos seus projetos. Ganhou quem entrou cedo e saiu igualmente cedo.

A maioria dos investidores que financiaram Ivar Kreuger eram americanos, e a descoberta de que o empresário fora capaz de enganar tantos por tanto tempo estimulou a reforma das regras do mercado de capitais americano, em especial o Securities Act de 1933. O livro defende que a debacle do Império X, em especial os acontecimentos envolvendo a OGX, deveriam levar ao mesmo tipo de reforma nas regulações e autorregulações (no caso, da Bovespa) no Brasil. Como eu, o autor não se mostra muito esperançoso de que isso ocorra.

Olhando para o futuro, um ponto importante é que nem todos os investimentos de Ivar Kreuger naufragaram com ele. A Ericsson e algumas empresas de fósforos estão aí até hoje. É provável que o mesmo ocorra com algumas das empresas de Eike Batista, sob nova administração e com novas infusões de capital.

Por fim, o que a história de Ivar Kreuger mostra é que a ascensão e queda do Império X não foi a primeira vez, e nem deve ser a última, em que a euforia com retornos elevados e riscos supostamente baixos dá origem à dura realidade de que não há almoço grátis.

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